MÉTRICA

Dados · leitura de fonte

A PwC descreveu o seu problema. Só aplicou ao cliente errado.

Um estudo de fevereiro de 2026 nomeia com precisão os quatro obstáculos que impedem uma empresa de decidir com dados. Depois trata todos eles como assunto de marketing.

Por Marcelo Pizzolatto · 17 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

Relatório impresso sem marca, fechado sobre uma bancada de aço riscada, com luvas de trabalho e uma régua metálica ao lado; ao fundo, paletes e estruturas de um galpão industrial fora de foco.

Existe uma frase, na página 24 de um estudo da PwC Brasil, que descreve a rotina de boa parte das indústrias e distribuidoras de médio porte que eu conheço:

Muitas organizações ainda enfrentam obstáculos para se tornarem, de fato, orientadas por dados: silos de informação, baixa qualidade nas bases, ausência de governança e resistência cultural à tomada de decisão baseada em evidências.
PwC Brasil · O poder dos dados na reinvenção dos negócios, fevereiro de 2026

Quatro substantivos. Silos, qualidade, governança, cultura. Qualquer gestor que já tenha pedido o número de vendas do mês e recebido duas respostas diferentes reconhece os quatro sem precisar de tradução.

O problema é o que vem depois.

O estudo fala com o marketing

As outras 33 páginas do material tratam de visão 360º do consumidor, hipersegmentação, personalização de campanha e jornada omnicanal. O estudo é coproduzido com uma plataforma comercial de dados, e o caso apresentado é de uma grande operadora de telecomunicações.

Nada disso é defeito. É recorte. O material foi escrito para o diretor de marketing de uma marca de consumo — e para esse leitor ele funciona.

Só que o diretor industrial que lê aquela frase da página 24 e se reconhece nela não está com problema de campanha. Ele está com problema de margem, de prazo de fornecedor e de estoque parado.

O mesmo problema, na outra ponta da empresa

Silo de informação não acontece só entre marketing e atendimento. Acontece entre compras e financeiro, quando o preço negociado não bate com o preço pago. Entre produção e comercial, quando a promessa de entrega não conhece a capacidade real da fábrica.

Base de baixa qualidade não é só cadastro de cliente duplicado. É o mesmo item cadastrado três vezes com códigos diferentes — e o comprador que jura que o preço subiu, sem conseguir provar, porque o histórico está partido em três.

Ausência de governança não é só LGPD. É não existir uma definição escrita de “venda”. Se o comercial conta pelo pedido e o financeiro conta pelo faturamento, os dois números estão certos — e a reunião passa quarenta minutos discutindo qual planilha vale.

É o mesmo diagnóstico. Só que sobre esse ninguém publica relatório, porque conciliação de compras não rende manchete.

O que fazer com isso na segunda-feira

Não é preciso projeto para começar. Três perguntas, respondidas honestamente, já mostram onde a empresa está:

  1. Quantas definições de “venda” existem na sua empresa? Se a resposta for mais de uma, e ninguém souber qual é a oficial, o problema é governança — não é sistema.
  2. Quanto tempo separa o fato do número? Se a informação de segunda só fica pronta na quinta, a decisão de segunda foi tomada no escuro.
  3. Quantas pessoas precisam estar disponíveis para o relatório sair? Se a resposta for “uma”, o risco não é analítico. É operacional.

Nenhuma dessas perguntas exige ferramenta nova para ser respondida. Todas exigem alguém disposto a escrever a resposta.

Onde eu discordo do estudo

O material afirma que organizações orientadas por dados têm “três vezes mais chances de relatar melhorias significativas na tomada de decisões”. A palavra que importa ali é relatar: é autorrelato, não medição de resultado. E empresas que usam bem os dados também tendem a ser maiores e mais bem geridas — o número pode estar medindo porte, não analytics.

É um argumento fraco, e um diretor cético derruba em uma frase. A força do estudo não está nesse múltiplo. Está na página 24 — no momento em que uma Big Four escreve, com todas as letras, que o obstáculo não é falta de dado.

É exatamente o que a gente vê em campo. A empresa já registra tudo. O que falta é o caminho entre o registro e a decisão.

Se alguma das três perguntas acima ficou sem resposta boa, é aqui que esse caminho começa — ou converse com a gente e a gente descobre junto qual é a sua.


Fonte: PwC Brasil, O poder dos dados na reinvenção dos negócios, fevereiro de 2026, 34 páginas. Material editorial coproduzido com a Zoox Smart Data; não é pesquisa com amostra própria. A citação da página 24 é literal. Os demais números do estudo citam pesquisas anteriores da PwC e não foram usados aqui.